O tombamento federal do Quilombo Urbano Ferreira Diniz protege agora o terreno, o quintal e os casarões da comunidade na Rua Cândido Mendes, no bairro da Glória, zona sul do Rio de Janeiro. No espaço vivem 14 famílias. A decisão do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) foi relatada pela Agência Brasil em 27 de setembro de 2026, depois de oficializada na semana anterior; o local é o primeiro quilombo do estado a receber tombamento do órgão.
A proteção alcança o conjunto construído e a área aberta que funciona como espaço comunitário. O Iphan também pretende inventariar as manifestações culturais do quilombo. Segundo a superintendência do instituto no Rio, o reconhecimento impõe restrições à demolição, à descaracterização e a intervenções incompatíveis com os valores históricos e culturais identificados, ao mesmo tempo em que reconhece a presença da comunidade no território.
O casarão principal, de linguagem neoclássica, remonta às moradias de maior porte erguidas na Glória no início do século 20. Antes usado como hospedagem, o imóvel foi adaptado pelas famílias: os cômodos amplos foram subdivididos em apartamentos. A construção precisa de reformas para melhorar as condições de moradia, um problema que o tombamento, por si só, não resolve.
A história das famílias Ferreira e Diniz no endereço começou na década de 1950, quando Maria Isabel Ferreira, descendente de africanos escravizados de Minas Gerais, passou a morar no casarão após se casar com Antônio Dias Pessanha, então zelador do prédio. A família permaneceu no terreno e cresceu ao longo das décadas. Em 2023, a Fundação Cultural Palmares reconheceu a comunidade como quilombola.
O quintal, com árvores e áreas de convivência, recebe festas, atividades culturais e a feijoada da Tia Cida, servida por Maria Aparecida Ferreira com participação de outros moradores. A atividade gera renda e ajuda a custear a manutenção do casarão. O endereço também enfrenta a pressão imobiliária e o alto custo de vida no bairro. De acordo com a associação estadual de comunidades quilombolas citada pela Agência Brasil, o Rio tem 54 quilombos, dos quais 13 urbanos.
A presidente da associação da comunidade, Érida Ferreira, espera que o tombamento contribua para o reconhecimento da posse coletiva do imóvel pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). O órgão informou à Agência Brasil que acompanha o processo, ainda em fase inicial. A regularização é vista pelos moradores como caminho para acessar programas de reforma e reduzir o risco de fragmentação do terreno.
A Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (UFF) está encarregada do primeiro estudo técnico para o processo no Incra. Sob responsabilidade da professora Ana Carmen Amorim Jara Casco, o levantamento documenta a história das famílias e o modo de vida comunitário; a previsão divulgada é entregá-lo até o fim de 2026. O estudo, a titulação e a eventual reforma são etapas futuras, sem resultado concluído na data da reportagem.
O caso mostra que conservar um conjunto arquitetônico habitado envolve tanto a proteção material do casarão e do quintal quanto a continuidade do uso comunitário. A restrição a intervenções incompatíveis exige que uma futura reforma documente o valor patrimonial e as necessidades de moradia. O tombamento não equivale à titulação coletiva nem financia as obras; essas etapas seguem em andamento.
