Uma revisão sistemática liderada por pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso reuniu 22 publicações sobre moradia rural na Amazônia Legal para identificar como tipologias, materiais e técnicas locais podem orientar projetos habitacionais. O estudo, publicado em Frontiers in Built Environment, parte de uma busca inicial de 1.019 registros em Web of Science, Portal de Periódicos CAPES e Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações. Após triagem e avaliação de qualidade, 31 trabalhos foram elegíveis e 22 compuseram a análise final. A investigação não apresenta uma casa nova construída nem mede o desempenho de um protótipo.
Segundo a equipe de Luciane Cleonice Durante, as palafitas, habitações flutuantes, pisos elevados, passarelas e varandas respondem às cheias periódicas, à umidade, à ventilação e à mobilidade por rios. A madeira aparece como material principal em estruturas, pisos, paredes e coberturas, enquanto bambu, palha, telhas de madeira, adobe e materiais de terra ocorrem em contextos específicos. A revisão considera também a disponibilidade de recursos, a autoconstrução, o trabalho doméstico e produtivo e a transmissão de saberes entre gerações.
A comparação de estudos sobre unidades padronizadas do antigo Programa Nacional de Habitação Rural no Pará mostra benefícios em segurança, saneamento e privacidade, mas também conflitos de projeto: cômodos e cozinhas pequenos, ventilação e iluminação insuficientes e falta de varandas, quintais ou áreas de trabalho. Em um estudo citado na reserva extrativista Caeté-Taperaçu, 91% dos domicílios observados haviam sido modificados pelos moradores com cozinhas, quartos, banheiros e espaços semiabertos adicionais. Esse percentual é daquele estudo de caso e não representa todas as moradias da Amazônia.
O artigo descreve a substituição progressiva de coberturas e paredes tradicionais por fibrocimento, metal e alvenaria, motivada também por expectativas de durabilidade e modernidade. Os autores alertam que trocar materiais sem considerar clima e uso pode ampliar ganho de calor, reduzir ventilação e dificultar reparos locais. Defendem combinar melhorias técnicas com conhecimento territorial, em vez de tratar a arquitetura vernácula como solução pronta ou associar toda prática tradicional a segurança e conforto adequados.
Da síntese de cinco dimensões do chamado genius loci — água e território, clima, materiais e ecologia, organização social e produtiva, identidade — resultaram 13 possibilidades de tecnologia social. Entre elas estão sistemas de palafitas modulares e evolutivas, plataformas flutuantes, componentes de resíduos de madeira, sistemas híbridos madeira-bambu, soluções bioclimáticas de cobertura e fachada, saneamento descentralizado, captação de chuva, blocos solo-cimento e assistência técnica permanente. São propostas a desenvolver, não produtos já validados em campo.
Para testar sua aplicação, a pesquisa recomenda leitura participativa do território, inventário de técnicas locais, coprodução com moradores e construtores, protótipos em escala real e avaliação pós-ocupação. Desempenho estrutural, durabilidade, conforto higrotérmico, saneamento, custos e manutenção ainda precisam ser verificados. A própria revisão reconhece heterogeneidade entre os 22 estudos, presença relevante de teses e dissertações e limites para generalizar seus resultados a toda a Amazônia rural. Os autores também declararam uso de ferramentas de IA na tradução e na consolidação de parte da análise do manuscrito.
Além da envoltória e da planta, a conclusão vincula habitabilidade a abastecimento de água, esgoto, energia, resíduos, mobilidade e acesso a serviços. A equipe propõe que políticas de habitação rural admitam soluções diferentes para várzeas, comunidades ribeirinhas, terra firme, assentamentos e áreas extrativistas, com participação dos moradores desde a escolha dos materiais até a manutenção.
O levantamento ajuda equipes de projeto a formular requisitos de moradia conforme cheias, ventilação, usos produtivos e manutenção local. As 13 soluções são hipóteses de desenvolvimento: dimensionamento, custo, durabilidade e aceitação comunitária exigem ensaios e avaliação em cada território antes da adoção.
