Análise • Publicação VAELITH: 25/10/2026.
Uma obra pode ter trechos impedidos e, ao mesmo tempo, avançar pouco onde já poderia trabalhar. Essa distinção aparece na fiscalização do lote 6F da Ferrovia de Integração Oeste-Leste, na Bahia, examinada pelo TCU no Acórdão 2.531/2026, de 16 de setembro. O caso ajuda a formular uma pergunta mais precisa para a gestão: quanto do atraso decorre de uma frente indisponível e quanto persiste depois de sua liberação? Esta é uma análise do diagnóstico, não um novo balanço de execução em outubro.
O recorte financeiro é o Contrato 33/2021, referente aos 132,11 quilômetros do lote 6F-A. Para janeiro de 2026, o TCU registrou R$ 244,1 milhões de execução financeira acumulada, diante de aproximadamente R$ 362,5 milhões previstos. Os percentuais eram 48,79% e 72,46%, respectivamente, calculados sobre o valor contratual de R$ 500,2 milhões, na data-base de janeiro de 2021. Não são percentuais de toda a Fiol nem uma contagem de quilômetros prontos para operar.
A subtração dos percentuais resulta em 23,67 pontos percentuais de defasagem. Pelos valores completos apresentados no relatório, a diferença era de R$ 118,4 milhões. Isso expressa distância em relação ao cronograma, não dinheiro desviado, prejuízo comprovado ou despesa adicional de recuperação. Também não basta chamar a execução financeira informada de pagamento ou de patrimônio integralmente imobilizado: essas categorias exigem conciliação com desembolsos, medições e condição dos ativos. Misturar os conceitos transforma um indicador de atraso em uma acusação que os números, sozinhos, não sustentam.
A auditoria identificou pendências de projetos, interferências elétricas e restrições em áreas de interesse espeleológico e arqueológico. Mas também apontou mobilização insuficiente de equipes e equipamentos e redução do ritmo mesmo com frentes sem impedimento. A consequência gerencial é importante: uma autorização pode retirar uma barreira, mas não coloca automaticamente máquinas, trabalhadores e materiais no local. A resposta precisa combinar solução dos impedimentos com capacidade demonstrável de produzir, sem transformar proteção ambiental ou patrimônio arqueológico em explicação genérica para todo o atraso.
Há evidência posterior de atividade no canteiro, que impede descrever o lote inteiro como simplesmente abandonado. Em publicação de 2 de julho de 2026, o DNIT informou acompanhamento de serviços no lote 6F, incluindo exploração de pedreira e aplicação da primeira camada de brita do lastro. A observação comprova a existência daqueles serviços, mas não demonstra, por si, recuperação do cronograma global. O indicador útil deve relacionar quantidade executada, prazo e posição do serviço na sequência necessária à entrega.
O TCU recomendou acompanhar o Compromisso de Ajustamento de Conduta com indicadores, relatórios, responsáveis por decisões e pagamentos vinculados às metas pactuadas, além de articulação formal com concessionárias e órgãos licenciadores. Na prática, um controle verificável pode separar cada frente por situação, data de liberação, produção prevista e realizada e recursos mobilizados. Um trecho liberado com produção insuficiente exige uma decisão diferente daquela necessária em um trecho que aguarda aprovação técnica. Reprogramar apenas a data final esconde essa diferença.
A posição posterior da Infra S.A. também precisa entrar na leitura. Em informação atribuída à estatal pelo Broadcast Agro e reproduzida pela Cogo em 21 de setembro, a empresa afirmou que o acordo já havia produzido cumprimento de metas e que o faturamento passara de R$ 19,7 milhões no período anterior para R$ 25,7 milhões desde junho, crescimento informado de 30%. Esse relato indica reação, mas a síntese não explicita as datas completas dos dois intervalos comparados. Não permite, portanto, converter a variação em ritmo mensal comparável nem concluir que toda a defasagem foi eliminada.
O efeito para a sociedade não se resume ao saldo do contrato. A ANTT apresenta o corredor Fico-Fiol como alternativa para escoar cargas do oeste baiano, de Mato Grosso e do Matopiba em direção ao Porto Sul. A utilidade depende da conexão entre segmentos e da disponibilidade do restante do sistema. Assim, o atraso pode adiar uma alternativa logística para produtores e cadeias de abastecimento, mas as fontes consultadas não permitem atribuir a este lote um valor de frete perdido, empregos não criados ou aumento de preços ao consumidor.
A lição é cobrar duas entregas simultâneas: resolver as restrições reais e demonstrar avanço nas áreas disponíveis. Para o controle público, interessa saber qual obstáculo foi removido, que produção isso viabilizou e quanto falta para formar um trecho utilizável em conjunto com os demais. Nem uma justificativa abrangente de impedimentos nem uma fotografia de máquinas trabalhando responde a essas perguntas. Recuperar o cronograma exige mostrar a ligação entre decisão, capacidade de execução e serviço que chegará ao usuário.
Fontes consultadas
TCU — Acórdão 2.531/2026, relatório e voto: fiscalização do lote 6F da Fiol, sessão de 16/09/2026
TCU — Ata 36/2026: dispositivo do Acórdão 2.531/2026 e recomendações à Infra S.A.
DNIT — Acompanhamento dos serviços de superestrutura ferroviária no lote 6F, 02/07/2026
ANTT — Corredor Ferroviário Leste-Oeste: composição e finalidade do projeto
Auditoria do TCU separa impedimentos externos da falta de equipes e máquinas. No retrato de janeiro de 2026, o contrato do lote 6F-A estava 23,67 pontos percentuais abaixo da execução financeira prevista.
